VANITAS VANITATUM

Carta a um Ex-Professor e a um Sempre Poeta

 

Professor Dantas,

 

Sempre soube, desde o primeiro momento, que atrás daquele jeito sisudo de ser na sala de aula havia um homem que tinha seus sentimentos pulsantes, mesmo que em estado de latência. Pude ver isso claramente no último dia de aula, quando você divulgou nossas notas oralmente. Lembro-me bem que lhe disse: “Sabe, Professor, eu pensava que você implicava comigo por não gostar de mim, mas descobri que você me adora.” Em seguida flagrei um sorriso que insistia se esconder em um rosto que parecia não ter alma. Eu sempre soube que você tinha alma!

Sem querer ser ousada, peço licença para apelidar, carinhosa e respeitosamente, Instantes Poéticos de “Desnudamento”.

Mais do que me deleitar com seus versos, que me permitiam fazer leituras visuais e muito próximas, como Graciliano em Vidas Secas nos permite, e chegar ao profundo êxtase afetivo-amoroso que Castro Alves em “Boa Noite” nos conduz, eu senti uma alegria enorme ao ver que nunca estive equivocada. Que você sempre foi mais humano, mais sensível, mais solidário, mais criativo e bem mais humorado.

“Desnudamento” me esquenta a memória, me fazendo lembrar a quebra do clima daquela sala de aula silenciosa do Português VII. Ali, naquela sala silenciosa, me veio o “barulho” de todas as emoções preciosas que você insistia em esconder da gente – da sua turma de nove alunos, de seus ex-alunos, dos transeuntes.

Ao término do curso de Letras, a busca de orientador para tentar o Mestrado e fui ter com você na Reitoria. Jamais me esquecerei como fui bem acolhida.

Já no Departamento, lá em Educação, a procura de livros difíceis de achar e de novo a sua alma ia atrás de muitos que eu pedi, inclusive, O Brinco. Este veio de longe – interior de São Paulo, por meio de uma pessoa de um dos sebos.

Nos últimos tempos, Instantes Poéticos, que permitia sair, agora da alma, aliterações, metáforas – recursos estilísticos não teorizados por Vossler (faz tanto tempo... nem sei se é assim que se escreve), mas tecidos por você, Professor, que já não mais se esquiva em falar ou expressar a essência da qual nós somos feitos – anima.

Sabe, é muito bom saber que eu não estava errada. Que camuflada naquela falta de sorriso, havia uma alma que sorria pela mulher amada, pelo pai amado, pela natureza amada... Mas um comentário estilístico sobre sua poesia me arrisco fazer em um outro momento. Por enquanto, permito-me apenas sentir um poeta romântico que se funde nas águas salgadas e doces, respectivamente, de Álvares de Azevedo e Castro Alves.

 

           Meu abraço envolto de profunda admiração e gratidão, por todas as formas e momentos, em que me ajudou a crescer,

                                                                         Walkíria Carvalho

                                                                         Em 09 de 02 de 2007

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